quinta-feira, 28 de março de 2013

CARTA ABERTA AO CÔNSUL GERAL DE PORTUGAL EM MAPUTO


Exmo. Senhor

Venho por este email manifestar o meu veemente repúdio e indignação pela recusa de visto de entrada em Portugal à minha amiga Maria Emília, cidadã moçambicana, a quem prometi mostrar Lisboa e algumas zonas de referência deste país.

A recusa do visto será, talvez, meramente circunstancial, um papel tirado a eito de um monte sobre uma secretária, para que a percentagem de recusas confira com as previsões anteriormente efectuadas, não vá acontecer aos vossos serviços o que acontece sistematicamente aos serviços do Ministério das Finanças que erra em todas as previsões.

Ou pode ter em vista a futura e equivalente retaliação por parte dos serviços consulares moçambicanos em Portugal, que passariam a criar ainda maiores dificuldades à obtenção de visto por cidadãos portugueses que pretendam ir a ou para Moçambique, contribuindo assim para a diminuição do fluxo migratório, muito elogiado pelo Primeiro Ministro português, mas que começa a ser preocupação para as autoridades e cidadãos dessas terras do Índico.

Pode também dar-se o caso de haver um motivo mais nobre, diria quase altruísta, evitar que uma cidadã moçambicana se confronte em primeira mão, e é sempre diferente experienciar do que receber informações já tratadas, com o estado de degradação a que uma elite político financeira corrupta e promíscua, apoiada em leis elaboradas por gabinetes de advogados desonestos, levou este país, dito à beira mar plantado, mas onde esta Primavera as flores já não nascerão pois as raízes que as alimentam apodreceram. Evitar-se-ia assim que a Maria Emília se apercebesse de que o grau de corrupção e iniquidade em Portugal é hoje infinitamente superior à tão propalada corrupção das elites moçambicanas e assim relativizasse o que se passa no seu próprio país.

Bem-haja Senhor Cônsul por tão benemérito cuidado, se tiver sido esta a sua intenção.

Não posso no entanto deixar de salientar Senhor Cônsul que considero que o motivo apresentado para a recusa do visto, "Não ser fiável a justificação apresentada para o objectivo da visita nem para as condições de alojamento", é no mínimo xenófobo e ofensivo, para além de obviamente imbecil.

Xenófobo pois corresponderá, Senhor Cônsul, à opinião de que uma cidadã moçambicana, escurinha e de poucas posses, não pode ter o desejo de conhecer o país europeu ex-colonizador nem de aí fazer turismo, pois isso deverá ser reservado a turistas clarinhos, ricos e de países ricos, inserindo-se assim na douta vontade do brilhantíssimo Ministro da Economia de Portugal, que pretende fazer do Algarve a Miami da Europa.

Ofensivo para mim que não serei um cidadão fiável de Portugal, apesar de ter feito uma licenciatura com distinção e com mais cadeiras do que o necessário, apesar de ter seguido até ao topo (equivalente a Professor Catedrático) uma carreira de investigação científica na mais fiável das instituições portuguesas (o LNEC; de que sou Investigador Coordenador), tendo para além de uma Tese e de um Programa de Investigação, publicado mais de duzentos trabalhos a nível nacional e internacional e de ter também uma carreira artística profissional no teatro e no cinema, com participação em mais de sessenta espectáculos e em cerca de cinquenta filmes.

Cidadão fiável para si Senhor Cônsul e para os seus serviços será certamente o Ministro Miguel Relvas, digno rebento da maternidade de oportunistas e corruptos que é a Juventude Social Democrata (JSD) e membro distinto do Clube de Negócios Sujos que é o Partido mãe da JSD, o qual das trinta e seis cadeiras da sua licenciatura fez três ou quatro, num gesto de grande hombridade, pois poderia ter obtido também para estas, como para as outras trinta e duas, a passagem administrativa por equivalência à carreira profissional, o que certamente os seus colegas de Clube lhe garantiriam.

E fiabilidade por fiabilidade digo-lhe Senhor Cônsul que se os alunos das universidades moçambicanas souberem da possibilidade de fazer um estágio na JSD seguido de uma licenciatura, com direito a passagem administrativa por equivalência profissional adquirida com apoio da mesma JSD, numa universidade portuguesa, eventualmente complementado por um cargo de Ministro, será uma corrida desenfreada aos vistos nesse consulado.

Espero sinceramente Senhor Cônsul que no mais curto prazo de tempo esses serviços revejam a decisão de recusa de visto, revisão que a minha amiga requereu e lhe peçam reiteradas desculpas.

Três notas finais Senhor Cônsul: a primeira é que fiz chegar a esse consulado os exigidos e malfadados Termo de Responsabilidade e Atestado de Residência, para obtenção de visto de entrada em Portugal para a Maria Emília e para a minha prima Ema Melembe, pois virão as duas juntas, tendo os mesmos documentos servido para a Ema e não para a Maria Emília, o que atesta a imbecilidade da recusa; a segunda é que enviarei de imediato cópia desta mensagem ao meu querido amigo João Machado da Graça, digníssimo jornalista do Savana, com a sugestão que dela faça uma notícia; a terceira é que, sobre este assunto, vou escrever uma carta aberta ao seu chefe e a vou divulgar pelas redes sociais e pela comunicação social.

Atenciosamente

José Mora Ramos
cidadão português
portador do BI 314411,
Investigador Coordenador do LNEC,
actor, encenador e dramaturgo

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