quarta-feira, 6 de março de 2013

Orgulhosamente Moçambicana


Muitas vezes quando eu paro para pensar no estado da nação e no ambiente sócio-politico-económico do nosso país eu sinto-me desiludida, zangada, receosa e triste. Eu acredito que não sou a única que se sente assim. 
Hoje e nos últimos três dias eu tenho estado a assistir à convenção do partido democrático dos Estados Unidos, os discursos proferidos nesta convenção foram tão bons, tão bem escritos, tão bem proclamados que tive de me lembrar a mim mesma inúmeras vezes que eu não sou americana e por isso não tenho de me sentir "orgulhosa em ser americana".
Estes discursos fizeram-me pensar nos motivos pelos quais eu sempre fui e sou "orgulhosa em ser moçambicana"! Então hoje eu resolvi dar trégua à minha incessante critica social e concentrar-me nestes motivos. Aqui vai:

1. Nossas origens e a luta de libertação nacional
A "identidade nacional" do moçambicano é muito recente, começa no tempo do Mondlane, começa com homens e mulheres na sua grande maioria camponeses de pé descalço que nunca foram à escola e que não falavam português. Essas dezenas de moçambicanos sem rosto e sem nome que com grande determinação e coragem começaram a organizar a frente de libertação de Moçambique; que partiram para uma terra estranha, com uma língua diferente para ir aprender a ser soldado para nos libertar a todos nós; que depois regressaram empunhando armas e venceram batalhas e puseram tanta pressão no governo português que este caiu e finalmente, Portugal nos concedeu o nosso mais básico dos direitos humanos: o direito a uma nação!
Estes primeiros moçambicanos, que nos convenceram a todos nós a sermos também moçambicanos, são a minha primeira fonte de grande orgulho!
Até hoje, ler a obra de Eduardo Mondlane ou ouvir os vários discursos de Samora Machel deixa-me inchada de orgulho! Os princípios e valores que guiaram os nossos líderes são uma fonte de inspiração para mim. Estes homens, falecidos há já tantos anos, ainda me ensinam: humildade, coragem, compaixão, integridade, patriotismo, respeito profundo pelo próximo e determinação em criar um Moçambique melhor para todos os moçambicanos. Os nossos grandes líderes e heróis são a minha segunda fonte de grande orgulho!
2. A coragem e determinação do nosso primeiro governo
Quando a 25 de Junho de 1975 a independência finalmente chegou os Portugueses foram embora em massa. Sei que não exagero quando digo que muitos deles partiram apostando na nossa derrota. Sinceramente essa era a aposta mais segura, pois os Portugueses deixaram um grupo de jovens adultos, entre os 20 e os 40 anos, sem nenhuma experiência de governação a dirigir um país de analfabetos com alguma infraestrutura mas sem quase ninguém qualificado para "pôr a máquina a trabalhar". E foi assim que recém-graduados viram-se com o peso do país aos ombros!
As dificuldades enfrentadas pelo primeiro governo não foram poucas. As soluções por eles obtidas não foram sempre ao agrado de todos. Mas uma coisa ninguém pode negar: em 37 anos de independência Moçambique nunca deixou de ser um estado soberano, nem mesmo durante os primeiros 15 anos que foram sem dúvida os mais difíceis.
Por ter conseguido manter coerência política e o país à tona apesar de imensas pressões internas e externas eu tenho imenso orgulho no nosso primeiro governo! As mulheres e os homens que fizeram o nosso primeiro governo conseguiram fazer de Moçambique um país do qual todos nos orgulhamos quando tudo estava contra eles!
3. As nossas vitórias perante adversidades
Nós tirámos o tirano Ian Smith do poder e demos independência ao Zimbabué (ou pelo menos ajudamos muito) e por isso eu sou muito orgulhosa!
Nós com apenas alguns anos de vida e já no início do nosso conflito interno fomos premiados pela OMS pelo melhor Sistema Nacional de Saúde!!! Ai o orgulho que eu tenho nisso!!!
Foi também durante estes primeiros 15 anos que nós começamos a construir a nossa tão eficiente diplomacia. Moçambique é o único país de que eu tenho conhecimento que pertence ao mesmo tempo à CPLP e aos equivalentes do Reino Unido e da França (apesar de nós nunca termos sido colonizados nem por um nem por outro, apenas por Portugal). Os nossos diplomatas são e sempre foram tão bons que no meio da Guerra Fria, quando nós ainda éramos extramente socialistas, Samora Machel foi em visita oficial aos Estados Unidos da América! É graças aos esforços dos nossos diplomatas que nos mantivemos e nos mantemos à tona e por isso eu tenho muito orgulho neles.
Vitórias também são conquistadas no dia a dia desde a independência pelos meus compatriotas. Vencer a fome é um trabalho a tempo inteiro para quem vive abaixo da linha da pobreza, milhões de moçambicanos travam esta batalha há anos. No entanto todos os estrangeiros que visitam Moçambique têm um comentário em comum: nós somos um povo alegre e bem disposto, sempre com um sorriso nos lábios. Esta capacidade de manter boa disposição perante tanta desgraça é um motivo de grande orgulho para mim!
Eu nego o discurso político que diz que o Moçambicano é preguiçoso! Não há tempo para preguiça quando se vive abaixo de 2 dólares por dia como vive 70% (mais ou menos) da nossa população. Pela perseverança, pelo cometimento, pela coragem, pelo trabalho árduo dos moçambicanos eu digo: sou orgulhosa!
Nós temos uma capacidade incrível (característica dos povos necessitados) de desenrascar! Esta capacidade e atitude sempre otimista, sempre bem disposta devia ser uma fonte de orgulho nacional!
4. A improvável sobrevivência de certos valores perante um capitalismo selvagem
Moçambique é até hoje uma ilha no meio de África no que diz respeito à tolerância. Até hoje o nosso governo tem pessoas de várias raças e religiões. Apesar de haver muita discussão pública sobre estes assuntos as pessoas são verdadeiramente livres no seu dia a dia de professarem as suas religiões. Não só na lei, mas também na pratica o nosso país respeita a igualdade dos seus cidadãos.
Moçambique é também uma ilha no que diz respeito aos direitos da mulheres. Se bem que é verdade que a mulher não ocupa ainda uma posição de igualdade em relação ao homem na maior parte das situações, Moçambique tem mais mulheres em posições de poder e liderança que muitos dos nossos vizinhos. Eu acredito até que se a mulher certa concorresse para a presidência nós poderíamos ter uma mulher no cargo mais alto de poder.
Contra todos os indício e previsões nós mantivemos a liberdade de expressão! Todos nós às vezes dizemos ter medo de falar, mas o interessante é que o dizemos em público! O nosso governo e os nossos políticos são criticados todos os dias abertamente. Isto não acontece em todo o lado.
Nós temos uma sociedade civil forte e organizada, que colabora com o governo, parceiros e doadores e até certo ponto dirige o debate nacional. Eu acredito que isto é quase inédito em África.
Por termos passado uma lei que protege o direito à terra, o passo mais importante dado até hoje para proteger os direitos dos pobres em Moçambique e, mais uma vez, um exemplo para África e para o Mundo. Por, similarmente, termos passado uma lei da família e outra contra a violência doméstica que protegem e ajudam a garantir os direitos da mulher.
Por todas estas razões e por muitas mais, eu sinto-me orgulhosa de ser moçambicana nos dias de hoje!
5. O vale do ouro
Por último, Moçambique hoje é o novo "vale do ouro"! Todo o mundo quer um pedaço... Ter riqueza natural não é um motivo de orgulho, riqueza natural é como beleza, cai-nos na lotaria. Temos direito de nos sentir contentes com a nossa sorte mas não de sentir orgulho. Orgulho sente-se por algo que se construiu.
Eu não sinto orgulho pelo nosso vale de ouro, apesar de me sentir sortuda (talvez).
Também acho que não posso sentir orgulho pela paisagem natural e praias maravilhosas que nos calharam, mas uma parte de mim não resiste: a nossa herança natural é uma fonte de orgulho para mim. Mas mais do que isto, pelos esforços que aos poucos começamos a fazer para preservar esta riqueza, como são os exemplos dos diversos parques nacionais que estamos a proteger e reconstruir todos nós nos devíamos sentir orgulhosos.
O meu último orgulho é um orgulho malandro, do qual eu quase me envergonho, mas não chego a envergonhar-me porque o sentimento de satisfação é maior que a vergonha. Hoje Moçambique é um chamariz para imigrantes! Nós, que começamos do nada, ignorantes e verdes fizemos tão bom trabalho que hoje todos eles querem vir para cá!!! Este é um orgulho de vitória!
Moçambique, um dos países mais pobres do mundo (que foi o mais pobre durante anos) é hoje um exemplo a nível internacional! É hoje uma atração para pessoas vindas de economias falhadas, cada avião que aterra no Aeroporto Internacional de Maputo vem cheio delas; os nossos restaurantes, mercados, supermercados, as nossas escolas estão todos cheios delas.
O nosso país, um dos mais pobres do mundo, chamado de corrupto e incapaz, é uma atração económica! Quem diria?!! E por isto eu me sinto orgulhosa em ser moçambicana!!!
A moeda virou!
E eu estou orgulhosa!
Núria Negrão

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