quarta-feira, 6 de março de 2013

Sobre os textos da Sra Sandra Rodrigues

Li, com atenção, os dois textos escritos pela Sra Sandra Rodrigues e divulgados por email: “Comentários de uma portuguesa à carta aos portugueses” e a carta ao Ministro dos Negócios Estrangeiros português e Cônsul Geral de Portugal em Moçambique.

Em ambos textos a autora apresenta-se como arqueóloga (“um dos ramos de investigação histórica”) e faz as suas observações partindo desta posição. O dizer que é arqueóloga no primeiro texto serve como credencial para a validade das opiniões que apresenta em oposição às minhas (e de outros).

Tendo em conta este facto, que estes textos foram escritos por uma académica de umas das disciplinas de História que assim se apresenta, acho que o que escreve deveria ter maior rigor do que textos escritos por leigos.

O fim da Segunda Guerra Mundial teve como consequência a criação das Nações Unidas e das declarações contra o racismo e a xenofobia. Desde essa altura a intolerância social para com atitudes ou posicionamentos racistas ou xenófobos tem estado a aumentar. O vivenciar, ao vivo e a cores, dos últimos genocídios do século XX serviram para, de uma maneira drástica, lembrar à sociedade contemporânea que o risco de voltarmos a ver as mesmas imagens é bem mais real do que supúnhamos. Assim é natural que ao menor indício de xenofobia se levante um movimento de protesto contrário.

No entanto nem tudo é xenofobia e há que saber reconhecer quando estamos perante este fenómeno e quando estamos perante outros fenómenos. Qualquer historiador tem a obrigação de saber diferenciar entre xenofobia, preconceito e critica social. A linha que separa estas 3 posições é em alguns casos ténue e não de fácil interpretação, daí que seja compreensível que um leigo faça confusão entre as 3, mas... uma académica?????

A definição de xenofobia é “antipatia ou aversão por pessoas ou coisas estrangeiras”. Análises mais extensas do termo, no contexto de possível violência social, delongam-se sobre a característica primária de haver uma definição clara do grupo (que está a ser atacado). Há todo um processo narrativo onde aos poucos se retira a individualidade de cada membro do grupo ficando apenas os traços comuns que são acentuados nestas mesmas narrativas. Este tipo de discursos, xenófobos, são caracterizados por uma renúncia total em admitir diversidade no grupo em questão.

Quando uma académica, da área de História, fala de xenofobia subentende-se que esta sabe do que está a falar. Que esta examinou os discursos em questão e encontrou as características descritas acima e que por isso os classifica como discursos xenófobos.

Achei interessante que a autora pegou na parte da minha carta onde eu sou mais clara no frisar não só a diversidade do grupo de que estou a falar como também o facto de que o grupo é maioritariamente composto por pessoas de bem para me acusar de xenofobia. Vindo de um leigo não teria prestado atenção - eu sei que a minha carta não pode ser classificada como um discurso xenófobo uma vez que repetidamente reitero que não me refiro ao grupo todo, mas sim a indivíduos dentro deste. Mas a critica veio de alguém que, pela sua profissão, sabe melhor. Isto faz-me pensar que a autora está deliberadamente a manipular a opinião de quem lê os seus textos. Esta conclusão reforça-se ao ler o seu segundo texto – a carta aos seus governantes – cujo objectivo explicito é o de pressionar medidas administrativas contra moçambicanos. Achei também notório o facto de a autora não tomar, em ambos textos, precauções contra generalizações sobre a sociedade moçambicana.

Outro facto interessante no primeiro texto da autora é a maneira como esta apresenta os dados históricos. É curioso que a autora começa por dar credibilidade aos dados que apresenta e às suas opiniões a partir destes, dizendo que é académica de uma das áreas de História. A autora, na qualidade de historiadora, informa-nos que Portugal foi dos primeiros países a abolir a escravatura e que depois disso os negros passam a assalariados com “acesso a cuidados de saúde e a frequência da escola não lhes era vedada” – mas esquece-se, presumo, de mencionar que os mesmos governos que aboliram a escravatura (a abolição levou 100 anos a tomar efeito) não fizeram nada para garantir os novos direitos a que se refere, esquece-se também de mencionar que a tal abolição beneficiou a todos menos aos ex-escravos. Na sua tese não equaciona que o comércio português de escravos africanos começa em 1441 e vai até 1869 (428 anos), aliás a autora parece no seu texto querer diminuir ao máximo a relevância deste facto. A autora na sua posição de superioridade académica procede então à desacreditação do artigo da Wikipedia sobre o Chibalo (trabalho forçado pós-escravatura). Assim uma vez mais de maneira deliberada dá a entender implicitamente que o chibalo (documentado em inúmeros documentos históricos) é uma inverdade – este posicionamento é de uma desonestidade académica impressionante.

Depois da sua superior análise da história comum dos dois países a autora volta ao comentário geral sobre a carta. Nestes parágrafos finais diz que “não é vedando a entrada de um povo que se ultrapassa a pobreza absoluta” implicando que esta vedação da entrada dos portugueses seja a tese da minha carta, o que não é. Mais uma vez, vindo este comentário de alguém se auto-intitula académico, é preocupante a falta de rigor patente na sua análise.

A xenofobia é um fenómeno preocupante a que todos devemos estar atentos e prontos a denunciar. Mas o medo deste fenómeno social não nos deve levar a posições extremas de renúncia a qualquer tipo de debate sobre as relações entre grupos de pessoas. Desde que se tome atenção nestes debates para se evitar enveredar pelo caminho das generalizações e xenofobias o debate em si é benéfico para as relações entre os grupos e deve ser estimulado. Veja-se por exemplo os casos da África do Sul e do Ruanda com os seus debates nacionais de reconciliação.

O texto por mim escrito é uma critica social severa, mas acredito que tomei as precauções necessárias para não enveredar num discurso de teor xenófobo. Eu acredito que um debate publico sobre a nossa história comum é importante e urgente, principalmente agora que as relações entre portugueses e moçambicanos multiplicam-se "no território das ex-vítimas".

Núria Negrão

1 comentário:

  1. Aaah esta carta....deu-me mais gosto em ler que as cartas de amor de Sao Valentim a sua amada!
    E como ficou o desfecho?
    Houveram algumas tentativas de resposta pelo que a minha pesquisa internauta levantou...mas nada mais.
    Clap Clap Clap :)

    ResponderEliminar