quarta-feira, 10 de abril de 2013

Os mistérios da Serra da Gorongosa ou o retorno de Afonso Dlhakama e por conseguinte da Renamo ao palco politico nacional


Acabou o "caso Muchungué" ou pelo menos assim parece e quem saiu com mais vantagens foi, a meu ver, o Dlhakama e o seu partido Renamo. Nos últimos anos e a cada ciclo eleitoral, a Renamo tinha estado a perder o seu posicionamento político, de quase 50% em 1994 passou a menos de 35% em 2009, em números redondos a Renamo perdeu mais de 15% dos seus eleitores em 15 anos. E como se isso não bastasse uns dissidentes tinham resolvido formar o seu próprio MDM e já estavam a ganhar à Frelimo em municípios no centro, suposta base forte da Renamo. É de se dizer que havia necessidades de serem tomadas medidas extremas para recuperar o rumo perdido.

Assim o Dlhakama, numa manobra de mestre foi para a Gorongosa. Em Maputo gozaram com ele, pensaram que o homem estava a desistir. Mal sabiam o que o "Pai da Democracia" está mais velho mas ainda é esperto e sabe mais do que julgam. O homem foi para a Gorongosa, recolheu à base, voltou às suas raízes, reconciliou-se com antepassados e com vivos e planeou a reviravolta. Paciente que já várias vezes demonstrou ser, esperou pela hora certa. Enquanto em Maputo no parlamento tudo continuava na mesma na Gorongosa faziam-se planos.

E foi o que vimos, assim que se anunciaram as eleições o plano entrou em acção. A Renamo mais uma vez disse que não ia participar ou deixar participar. Ao mesmo tempo começou a movimentar homens para as antigas bases à volta a mística Serra. O governo apercebeu-se das movimentações e reagiu como esperado, movimentou os seus também. Estava criado o palco para Muchungué. Dlhakama contou com a arrogância de quem está no poder, sabia que a FIR tarde ou cedo iria provocar entrando em propriedade privada da Renamo e dispersando os homens. E assim foi e foi o que vimos. Em dois dias a Renamo conseguiu lembrar a todos nós como foram os famosos 16 anos. Em dois dias o nome Renamo e o nome Dlhakama voltaram a ser tópico principal de conversa. Em dois dias Moçambique encheu-se de vozes contra o governo, contra a arrogância, contra a falta de diálogo, contra o incumprimento dos AGE, contra contra contra... Em dois dias parou-se de dizer MDM e Frelimo e voltou-se a dizer Renamo e Frelimo. Manobra de mestre!

Mas não ficou por aqui o "velho" Dlhakama. Ele foi mais além e mostrou que realmente ainda é um combatente na luta politica em Moçambique. Depois de virar as atenções todas para ele e de todos estarmos atentos ele disse: "jornalistas venham". E os jornalistas foram e voltaram com imagens de um homem que vive como o povo, em casas como às do povo, nas zonas do povo. Um verdadeiro homem do povo! Dlhakama, eu tiro-lhe o chapéu!

Portanto não se espantem se nas próximas eleições vermos a Renamo a recuperar os seus 15%. Não se espantem se voltarem a ver bichas nas urnas. A Renamo está de volta! A Frelimo e o MDM que se preparem porque a luta pelos votos promete!

PS: Eu sei que há pessoas que vão reagir a este texto com questionamentos sobre "as vidas que se perderam" então acho melhor responder já. Eu lamento e condeno veemente a perca de vidas humanas durante estes confrontos. Eu considero o ataque da Renamo ao posto policial ilegal e é minha opinião que tanto os homens que perpetraram o crime como os seus mandantes devem ser trazidos à justiça. Sem isso não pode haver verdadeira democracia e estabilidade em Moçambique. Um estado democrático caracteriza-se por ser também um Estado de Direito. Por outro lado eu também tenho estado a exigir ao governo que nos mostre provas que justifiquem terem entrado em propriedade privada da Renamo. Que se estas provas não existem eu considero que a atuação da FIR foi anticonstitucional e que o Ministro do Interior deve se demitir. Nesta história toda não há inocentes.

1 comentário:

  1. É sim verdade, Dlhakama e a RENAMO voltaram a estar no centro das atenções políticas. Ficam sobretudo pelas últimas realizações que descreve no seu texto - se o governo do Partido FRELIMO não está disponível a aceitar as chantagens da RENAMO e seu líder, o que seria também sinal de cobardia - pareceu-me que o povo, como entidade que directamente sofreu agora e no passado, aparece como vítima fácil da rede de pesca RENAMIANA e cedeu por temer o retorno à guerra. E se não fosse pelas vidas humanas perdidas, era uma jogada politicamente valiosa para eles: veja que além da mediaçao do Prof. Lourenço do Rosário, no diálogo Dhlakama e Guebuza, o jornal Noticias de hoje avança dados de que uma delegaçao da RENAMO será recebida por quadros séniores dos Ministérios da Defesa e Interior. Isto são de facto grandes ganhos políticos da RENAMO e é igualmente uma expectactiva que se tem de um partido da oposição, além das lamúrias de campo torto, ausencia ou presença deste e aquele empecilho para a democracia:
    Infelizmente porque sabemos e pressinto, as minhas lamentações como democrata em relação a esta dupla,Dhlakama e RENAMO, vão persistir, ou seja Dhlakama não vai publicamente nos brindar como seus projectos; Dhlakama vai continuar a viver a sua vida misteriosa na Serra numa altura em que talvez devia sair para recuperar o seu lugar tomado pelo MDM, ainda que vivesse a "farsa" de cidadão do povo residente em Sanjituria, julgo que seus assessores devem-no convencer a participar de negócios públicos do país.

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